Depois de amanhã

Humildade
“O palhaço pode ser um bom ator, mas um ator nem sempre é um bom palhaço.”
Escuta
“Calma, calma, calma!”
Continuidade
“Você lavoura bem com o corpo!”
Depois da colazione, do petit déjeuner, do café da manhã, Leris começa uma conversa no banco de madeira em frente ao gramado de sua casa:
— O palhaço tem que fazer o público ver. Quando começa uma gag, não pensa no final, em terminar.
Penso na pressa que me trouxe até aqui, nos anos desejando chegar a algum lugar, nas tantas estrelas cadentes que atravessaram minha infância. Agora, sentado diante de Leris, escuto que não devo ter pressa de terminar. Cuidar para não apressar o fim.
Então, ele começa uma cena.
Levanta-se, anda lentamente com as pernas abertas, ajeita o coldre, simula pegar uma arma e se volta para mim. Encara-me, morde os lábios em sinal de tensão e, lentamente, começa a relaxar o corpo.
Ameaça se virar e continuar seu caminho, mas logo volta e saca as armas.
No rosto, uma expressão de meu Didi Mocó sabichão.
Começa a girar as armas, uma após a outra. Não satisfeito, passa a girá-las na horizontal, gabando-se de tamanha habilidade.
Novamente, ameaça retomar seu percurso inicial. Mas volta e me encara, com uma expressão que parece dizer:
— Ainda não está convencido? Então se prepare!
Dá mais três passos, afastando-se de mim. Olha para cima, avista o telhado e dá mais dois passos.
Saca as armas e faz um grande lançamento para o alto.
Prepara-se para recuperá-las e guardá-las no coldre. Faz uma mesura, como se fosse imbatível. Vira-se e começa seu percurso.
Um, dois, três passos...
Volta correndo e pega as armas no chão.
Tudo aconteceu ali, sem preparação, figurino ou música. Poucas palavras, uma sucessão de gestos, pausas e olhares. O corpo parecia conhecer o caminho, sem a necessidade de pensar cada movimento. E eu, que havia atravessado o oceano para aprender, começava a compreender que nem tudo se aprende estudando ou perguntando. Há uma infinidade de sentidos na vivência, saberes que só se revelam na experiência, quando o corpo encontra o mundo e a cultura, ultrapassando os limites do racional, encontrando outras possibilidades de expressão.
Leris conclui:
— O palhaço é o absurdo, não é surrealista.




