Dia um e mais um pouco


Humildade

Leris me pergunta:

— Você me viu no filme do Fellini?

— Não te reconheci! — respondo.

— Eu era a bunda do segundo cavalo!

E me mostra a foto com orgulho.

Escuta

— Faça. Não tente ser um novo Chaplin.

Continuidade

— Minha família trabalha com circo desde 1870.

Enfim, alojado na casa dos Colombaioni. Mary, esposa de Leris, decorou meu quarto com rosas. Penso que seria para agradar à Nayana, que, nas primeiras conversas, viria comigo, não fossem algumas mudanças no trabalho. Ao menos posso dormir abraçado com uma almofada onde está escrito Ti amo.

Mas nada de deitar! Agora é hora do jantar.

Logo me servem pães, queijo e vinho branco como entrada. E já vão avisando:

— Aqui não colocamos tudo de uma vez no prato. Essa é a entrada!

E assim foram todos os dias. Uma entrada, variando a bebida, depois o prato principal e, para finalizar, um licor — Amaro del Capo, limoncello — ou uma sobremesa — gelato, tiramisù.

Já sabe, né? Engordei! Kkkkk.

Assim que terminamos a refeição, Leris me pergunta:

— Por que vir até aqui aprender comigo?

Mal havia terminado o gelato e já compreendia o tom daqueles dias. Pouco tempo a perder, muitas conversas sobre os caminhos artísticos e ensaios intensos sobre o tempo cômico.

Naquela tarde, alinhamos como seria o trabalho: carga horária, objetivos, referências. Terminamos a conversa falando de Totò (Antonio de Curtis), multiartista italiano.

Leris havia montado um espetáculo a partir de um poema dele, 'A livella.

O poema conta a história de um homem que fica trancado em um cemitério na noite de Finados e presencia a conversa entre duas almas: a de um fidalgo, orgulhoso de sua linhagem, e a de um humilde trabalhador que recolhia lixo.

A discussão começa quando o fidalgo, indignado por estar enterrado ao lado de alguém que considera inferior, exige respeito à sua posição social.

O trabalhador, já sem paciência, lembra-lhe o que parece tão difícil compreender: ali, debaixo da terra, títulos, riquezas e distinções já não têm importância. A morte iguala a todos.

Penso novamente nas palavras daquela chegada: humildade, escuta, continuidade.

Uma família que atravessa gerações fazendo rir. Um artista que se orgulha de ter sido a bunda de um cavalo no cinema. Um poema que lembra aos homens a inutilidade de suas vaidades diante da morte.

“Você está morto, e eu também estou;

um homem é exatamente igual a outro."

"Seu porco imundo! Como ousa

se comparar a mim — eu, que me orgulho de uma linhagem

tão ilustre, tão nobre, tão perfeita,

que seria a inveja de príncipes reais?"

"Que 'linhagem' — que nada! Do que é que você está falando?!

Será que não entra na sua cabeça — nesse seu cérebro —

que você ainda sofre de delírios?

Sabe o que a morte é, de verdade? Ela é uma grande igualadora." Toto – A livella


*Participação viabilizada pelo Programa Funarte Brasil Conexões Internacionais.

*Bolsas Culturais de intercâmbio e Residência Cultural e Similares com fomento da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura - PNAB (LEI n° 14.399/2022)