Diário de Viagem

Esse relato começa com uma breve explicação. Muitas ações são motivadas pela negatividade do desejo, por uma energia que pulsa e nos impulsiona a transmutar a realidade aparente. Comigo não foi diferente. Quando me apercebi gente, desejei fortemente ser, estar no mundo com toda a minha potência. Desde então, existir passou a significar lançar-me em direção àquilo que ainda poderia ser

Quando esse movimento acontece, exige uma mudança. O olhar se desloca continuamente para dentro e para fora, buscando algo que ainda não existe, mas que já se anuncia na mirada, projetado nos sonhos, nas referências, nos exemplos. Comecei pela ausência. Faltavam-me referências, mas também me faltava reconhecer naquele mundo um lugar onde pudesse existir plenamente. Aquilo que desejava não encontrava expressão na minha família, entre meus amigos, no meu bairro, quiçá na minha cidade. Não se tratava apenas de querer estar em outro lugar, mas de descobrir outras possibilidades de ser e estar no mundo.

Queria ser artista. Não apenas dentro do meu quarto, não somente para meus familiares e amigos, muito menos para minha cidade. Queria ser artista para mim, para me sentir inteiro, vivo. Não buscava uma identidade definitiva, mas uma forma de existir que me permitisse continuar me transformando. Queria experimentar o mundo com todo o meu corpo e, nessa experiência, descobrir outras possibilidades de ser.

Hoje, ao começar esta espécie de diário de viagem, compreendo que, até aqui, tenho caminhado nessa direção. Poucos foram os momentos em que desacreditei da possibilidade de vir a ser. Daquela mirada que me distanciava de tantas pessoas e tantas coisas, mas que, paradoxalmente, me aproximava daquilo que ainda poderia me tornar.

Talvez seja esse o sentido de continuar caminhando: descobrir que não existe um ponto definitivo de chegada, mas um constante movimento de tornar-se. E que, ao final de tudo, possamos retornar ao lugar de onde partimos e, pela primeira vez, reconhecê-lo verdadeiramente.

Não parti porque sabia exatamente quem desejava ser. Parti porque intuía que havia outras maneiras de existir.



*Participação viabilizada pelo Programa Funarte Brasil Conexões Internacionais.

*Bolsas Culturais de intercâmbio e Residência Cultural e Similares com fomento da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura - PNAB (LEI n° 14.399/2022)